Feminicídio segue como desfecho de ciclos ignorados de violência contra mulheres
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| Foto: Divulgação |
Especialistas alertam que crime
raramente é episódio isolado e apontam sinais precoces, falhas institucionais e
caminhos de prevenção
O feminicídio
continua a figurar entre os crimes mais graves e persistentes no Brasil, apesar
do avanço de marcos legais e de políticas públicas voltadas à proteção da
mulher. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a maioria
dos casos ocorreu após um histórico prolongado de violência doméstica, marcado
por ameaças, perseguição, agressões psicológicas e tentativas de controle que
não foram interrompidas a tempo pelo Estado ou pela rede de proteção.
Para a advogada Victória Araújo Acosta, especialista em
direito de família e violência doméstica, o feminicídio costuma ser o ponto
final de um processo previsível. “Raramente é um ato súbito. Na maior parte dos
casos, há uma escalada clara de violência, com sinais ignorados ou minimizados.
O problema é estrutural e está ligado à desigualdade de gênero e à
naturalização do controle sobre a mulher”, afirma.
Segundo a
especialista, práticas como violência psicológica, patrimonial, moral, sexual,
ameaças e perseguição costumam anteceder o crime. Em contextos de separação, o
risco tende a se intensificar. “A ruptura do vínculo é um momento crítico.
Muitos agressores passam a usar os filhos, o Judiciário ou litígios abusivos
como forma de punição e controle, o que chamamos de violência vicária”, explica.
Por que
o feminicídio ainda ocorre
De acordo com Victória, a persistência
do feminicídio está associada a falhas na resposta institucional e à
deslegitimação recorrente da palavra da mulher. “Mesmo com leis importantes,
como a Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, ainda enfrentamos
morosidade, falta de monitoramento do agressor e decisões que relativizam o
risco real vivido pela vítima”, diz.
Ela ressalta que
esse cenário é agravado por vulnerabilidade econômica, ausência de rede de
apoio e medo de retaliação. “Muitas mulheres sabem que estão em risco, mas não
conseguem romper o ciclo por falta de proteção concreta. Isso alimenta a
sensação de impunidade do agressor e favorece a escalada da violência”, afirma.
Como
prevenir e interromper o ciclo
A prevenção, segundo a advogada, exige
atuação integrada do Estado. “Violência de gênero precisa ser tratada como
questão de segurança pública, saúde e direitos humanos. Denúncias iniciais não
podem ser tratadas como conflitos menores”, defende.
Ela aponta como
medidas centrais a concessão imediata de medidas protetivas, fiscalização
efetiva do seu cumprimento, acompanhamento do agressor e fortalecimento da rede
de acolhimento. “Abrigo seguro, atendimento psicológico, assistência social e
autonomia econômica são decisivos para que a mulher consiga sair da situação de
violência”, diz.
Dra Victória
também defende a capacitação permanente do Judiciário e da segurança pública.
“Sem formação técnica, decisões acabam reproduzindo estereótipos e expondo mulheres
e crianças a novos riscos”, avalia.
Como
pedir ajuda e avisar a polícia
Ao primeiro sinal de violência, a
orientação é procurar uma delegacia, preferencialmente especializada, ou
acionar o telefone 180 em situações de risco imediato. “A denúncia precoce
salva vidas. Não é preciso esperar a agressão física para buscar ajuda”, afirma
a especialista.
Como
reunir provas
Segundo Victória, a organização de
provas é fundamental. “Mensagens, áudios, e-mails, registros de chamadas,
prints de ameaças, laudos médicos, fotos de lesões, testemunhos e boletins de
ocorrência ajudam a demonstrar a continuidade da violência”, explica. Ela
recomenda guardar os registros em local seguro e compartilhá-los com alguém de
confiança.
Sinais
de alerta que não devem ser ignorados
Entre os principais sinais estão
controle excessivo, ciúme extremo, isolamento da mulher, ameaças veladas,
perseguição após a separação, tentativas de desqualificar a vítima,
descumprimento de medidas protetivas e uso dos filhos como instrumento de chantagem.
“Esses comportamentos indicam risco real e progressivo”, alerta.
Violência
processual e alienação parental
Victória destaca que a violência também
pode ocorrer dentro do sistema de Justiça. Defensora da revogação da Lei da
Alienação Parental, a advogada afirma que a norma tem sido usada de forma
distorcida em disputas familiares. “Na prática, a lei frequentemente é
instrumentalizada para desacreditar mulheres e relativizar denúncias de
violência, o que configura violência processual. Isso expõe mães e crianças e
pode ter consequências trágicas”, afirma.
Para ela,
enfrentar o feminicídio passa também por rever práticas institucionais.
“Enquanto o processo for usado para silenciar ou fragilizar a vítima, estaremos
falhando na prevenção. Proteger a vida das mulheres exige decisões
responsáveis, escuta qualificada e coragem para rever leis e práticas que
produzem mais violência do que proteção”, conclui.

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