CIPÓ COM SERPENTE
| Foto: Adriana Lago |
Assis
Medeiros, compositor-instrumentista, toca sua guitarra, compõe e toda
expressividade vem daí, da existência simbiótica entre o músico e seu
instrumento. Operário, não se cansa e compõe intensamente há décadas.
Sua
discografia abarca gêneros distintos, incluindo trilhas musicais para cinema. E
revela uma movimentada jornada criativa, desde o seu primeiro disco demo
autoral, em São Luís do Maranhão, até seu presente álbum, a ser lançado em
dezembro deste ano de 2021.
Neste novo
trabalho, Assis traz 10 canções autorais e foi todo produzido durante a
pandemia, e para o qual tocou todos os instrumentos e criou todos os arranjos.
“É um disco mais intimista. Foi todo gravado por mim no estúdio que tenho aqui
em minha casa, em Brasília”, diz Assis.
O
álbum apresenta sua guitarra de um jeito diferente e mostra que se tornou
um letrista com recursos inusitados, como no exemplo da canção-título do álbum.
Nela, mergulhado em seu universo onírico, todo delírio abstrato surge da
concretude da fome. Porém, Assis não fala de uma fome que vivenciou, mas da que
sentiu intimamente como cidadão do Nordeste.
Cipó com serpente começa épico
para, em seguida, e aos poucos, ir se tornando intimista, recolhido, pessoal.
“O que torna sua audição um passeio musical delicioso e sempre surpreendente.
Um disco bom de ouvir, do começo ao fim”, recomenda Hamilton Oliveira, parceiro
em duas canções do álbum, Flanuer e Bumerangue.
“Cada sopro
é revelação”, diz a letra de Veneno de
flor, que abre o disco. “Ouça o disco com isso em mente e conhecerá Assis
de um jeito que ele mesmo vai ficar incomodado”, provoca Hamilton. Pois o
ouvinte poderá chegar tão perto que, em alguns momentos, “vai imaginar que está
sentado na mesa de sua cozinha”, garante. E nessa área Medeiros manda muito
bem. Exímio cozinheiro, ele sabe exatamente que, numa receita terapêutica, a
diferença entre o remédio e o veneno é apenas a de uma pitada a mais, ou a
menos.
Sambando,
Assis chega com gravidade ao meio do caminho de Cipó com serpente,
onde está a Aço do amor. De melodia envolvente, pode ser ouvida em paz ou como uma experiência tormentosa. Quando canta “levante e vá”, não deixa
claro que é para levantar e seguir.
Pois parece que está dizendo isso deitado em sua cama e vai continuar lá como
está, com a respiração pesada. Porém, remetendo à melhor tradição do samba,
Assis nos desafia e eleva, sem ser superficialmente leve: “enfrente o mar,
invente sempre uma razão para viver, entorte o aço do amor, encontre um veio
qualquer”.
O disco traz também canções antigas nunca gravadas, como Onde tudo parecia e a bela e intrigante Pé de
moleca, homenagem à cantora Flora Lago, sua filha. Quando Assis a
compôs, Flora era apenas uma pequena criança, portanto, o fato da canção ser
bela e intrigante como a própria Flora, 20 e poucos anos depois, é pura
premonição paterna.
Uma canção
especial de sua lavra como letrista, Eira nem beira é, no
álbum, um dos exemplos do tipo de exercício artístico que Assis Medeiros se
dispôs a realizar nessa produção. Faz uma transposição autoral polêmica para os
dias atuais ao se arriscar a escrever em voz feminina, Medeiros aproveita esse
mesmo movimento para abdicar de características musicais marcantes quando
empunha sua guitarra simbiótica.
O álbum traz
ainda três canções em parceria, Flâneur e Bumerangue,
ambas com Ana Areias e Hamilton Oliveira, e A cor do lírio, com o
poeta Celso Borges, numa ode a outro poeta, Geraldo Urano (1953-2017), e cuja
gravação contou com a participações especialíssimas de Lídia Batista, irmã de
Geraldo, e do gaitista Pablo Fagundes. A canção é uma parceria póstuma com
Urano, pois inclui versos originais do poeta, colhidos sob as estrelas
irreverentes, experimentalistas e contestadoras do céu do Cariri.
Cipó com serpente conta
com duas participações especiais na canção A cor do lírio, Pablo
Fagundes, na gaita, e Lídia Batista (irmã do poeta Geraldo Urano), na leitura
de um trecho da letra. Foi mixado e masterizado por Homero Lotito. E o desenho
da capa foi feito pela designer Flora Lago, inspirado em foto de Adriana Lago.
A curiosidade é que o desenho foi feito à mão
livre e sem tirar a caneta do papel.
Este é o sexto disco solo do compositor Assis Medeiros, um pernambucano meio paraibano/maranhense que hoje reside em Brasília e trabalha, dentre outras coisas, com a criação e produção de trilhas sonoras originais para cinema e TV.
Serviço:
Álbum Cipó
com serpente, de Assis Medeiros
Lançamento:
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
Onde: em
todas as plataformas digitais e no YouTube
Canal:
youtube.com/channel/UC-t77qtxu9FBKjexiKzxBJQ
Plataformas digitais:
Spotify
- open.spotify.com/artist/1qldAg5W1od1oqQ9Ls2GPh
Deezer
- deezer.com/en/artist/1340174
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