Do Pó ao Pó: a morte como matéria viva na obra de Romulo Barros

 

Foto: Divulgação
 

Em exposição individual, artista trans do Distrito Federal questiona o horror à morte e convida o público a renascer pela aceitação do fim, em mostra que ocupa a galeria A Pilastra a partir de 30 de junho.

 

 

A galeria A Pilastra (Guará II) abre suas portas no dia 30 de junho para receber a exposição "Do Pó ao Pó", de Romulo Barros (Medeiros - MG, 1995). Com curadoria coletiva de Belo e Bizarro, Júlia Teodoro, Madá Granja, Ness e Tahak Meneguzzo, a mostra reúne um conjunto de obras que explora os ciclos de morte e renascimento, a memória de narrativas marginais e a morte não como um fim, mas como um processo de transformação. A visitação segue até 15 de agosto, com entrada gratuita e programação educativa paralela.

 

Natural do interior de Minas Gerais, em uma região marcada pelo artesanato, pela agricultura e pela cultura da invenção, Romulo Barros carrega em sua prática a memória de fazeres manuais. Sua produção nasce do afeto e do vínculo com o mundo, desprendendo-se do corpo para existir como transmídia. Escultura, instalação, pintura, fotografia, gravura e outras materialidades são utilizadas como dispositivos simbólicos que materializam uma atmosfera ritualística, articulando o que já existe no mundo em expressão poético-alquímica.

 

Em “Do Pó ao Pó”, Romulo Barros reinventa simbolismos e constrói uma poética visual que atravessa o abjeto e o divino, o erótico e o fúnebre, o visceral e o delicado. Em um país que há mais de 17 anos lidera o assassinato de pessoas trans, a fala de artista trans sobre a morte — não como negação, mas como aceitação e aprendizado — torna-se um ato político e existencial, um convite para desaprender o medo do fim.

 

Não nos traz respostas fáceis. Sua obra é polissêmica: ao mesmo tempo que toca em temas como corpo de um ponto de vista escatológico, suas obras evocam um erotismo; ao mesmo tempo em que são sombrias e fúnebres, produzem um deslumbramento divinal; falam simultaneamente sobre afeto e violência. Ela quebra todas as dualidades, despedaçando as barreiras frágeis que dividem e domesticam o mundo. É um trabalho ao mesmo tempo visceral e delicado, melancólico e celebrativo, simples e complexo, erótico e abjeto. Está além da linguagem, é inexplicável, e por isso comporta intermináveis significados.”, destaca o coletivo curatorial.

 

 

Matéria, signo e corpo: a tridimensionalidade como linguagem

 

A pesquisa de Romulo se materializa em uma mistura de linguagens que transita entre a pintura, a escultura, a fotografia, a gravura e a instalação. Longe de se fixar em um único suporte, costura seus temas com uma pluralidade de materiais e técnicas que dão carne ao conceito.

 

Entre os trabalhos tridimensionais, destaca-se a instalação "Fissura", na qual o tecido adquire propriedades escultóricas ao dar forma a um monte de feijões. Já em "Pedrada", o processo de escultura e assemblagem evidencia a materialidade bruta do fazer artístico. Em diversas obras de parede, como "SOM SOM SOM", "A Gota d'Água", "Seta" e "Elos Entrelaçados", Romulo Barros incorpora elementos tridimensionais em alto ou baixo relevo, borrando a fronteira entre o plano e o volume.

 

A pintura, por sua vez, ganha densidade com o uso de materiais específicos como cimento, sangue e veludo, enquanto a presença de elementos gráficos — setas, cruzes e círculos — confere à obra uma dimensão simbólica e ritualística. A série fotográfica, composta por "Intervenção" e "Olhos que a terra há de comer", completa esse universo visual com um olhar que documenta e também performa a memória.

 

 

O horror à morte em questão

 

A exposição parte de uma reflexão central: o horror à morte é um dos pilares do pensamento eurocristão-monoteísta, como aponta o pensador Nego Bispo em "A terra dá, a terra quer". Ideias como pureza, higiene, segurança, isolamento, hierarquia e controle estão fundamentadas numa negação radical da morte e numa afirmação da vida que, segundo o Romulo, aprisiona o corpo e o pensamento.

 

Ao contrário desse dualismo, Barros propõe uma aproximação íntima com a morte. Não para temê-la, mas para aprender com ela. Sua obra convida a renascer, justamente por permitir encarar o fim como parte indissociável da existência. Essa abordagem torna "Do Pó ao Pó" uma experiência estética e filosófica rara no circuito cultural brasileiro, especialmente por vir de uma pessoa trans.

 

 

Serviço

Exposição: "Do Pó ao Pó", de Romulo Barros

Curadoria: Belo e Bizarro, Júlia Teodoro, Madá Granja, Ness, Tahak Meneguzzo

Local: A Pilastra – QE 40 Rua 09 Lote 8 – Guará II

Abertura: 30 de junho (terça-feira), às 19h – evento aberto ao público

Visitação: 1º de julho a 15 de agosto de 2026

Entrada: Gratuita

 

Atividades paralelas: A exposição contará com visitas mediadas, roda de conversa e ações do educativo do Quintal d'A Pilastra para público aberto. As vagas são limitadas e as inscrições serão divulgadas pelo Instagram da galeria, com formulário próprio. A programação também prevê atendimento a escolas mediante agendamento.

 

 


 

 

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