Medicamento manipulado não é sinônimo de eficácia: por que o processo importa tanto quanto a fórmula na medicina veterinária
Por Dr. Leonardo Gavioli Garbois – Médico
Veterinário (CRMV-MG 13122)
Na
medicina veterinária, o uso de medicamentos manipulados é uma prática
consolidada e, muitas vezes, necessária. No entanto, existe uma confusão
recorrente — e potencialmente perigosa — entre personalização terapêutica e
eficácia garantida. Embora a manipulação magistral seja uma ferramenta
importante, tratá-la como solução universal revela mais desconhecimento
farmacotécnico do que boa prática clínica.
“O
erro começa quando se acredita que estar na fórmula é o mesmo que estar
funcionalmente ativo”, explica o médico-veterinário Leonardo Garbois. Segundo
ele, a medicina não se resume ao princípio ativo prescrito, mas ao processo
completo que garante estabilidade, biodisponibilidade e integridade molecular.
Diferentemente
da indústria farmacêutica, que opera sob controle rigoroso de variáveis
ambientais, a maioria das farmácias de manipulação não possui estrutura
equivalente à de ambientes industriais. E isso tem impacto direto no resultado
clínico, especialmente quando se trabalha com moléculas metabolicamente
sensíveis, instáveis ou altamente reativas.
Entre
os fatores que frequentemente não são plenamente controlados em ambientes
magistrais estão a oxidação atmosférica, a umidade absoluta, a fotodegradação
por exposição à luz, a variação de temperatura, o tempo de processamento e a
homogeneidade real de formulações complexas. Na prática, isso significa que a
substância pode constar na receita — mas não necessariamente chegar íntegra e
funcional ao organismo do animal.
Um
exemplo frequentemente citado na literatura é um ensaio clínico randomizado
publicado em 2018, que avaliou o uso de cetoanálogos manipulados em cães com
doença renal crônica por um período de 30 dias, sem resposta clínica
significativa. O estudo não invalida o uso dos cetoanálogos como estratégia
terapêutica, mas evidencia que determinadas moléculas sofrem perdas relevantes
quando submetidas à manipulação magistral sem controle adequado de estabilidade.
“O
problema não está no conceito da manipulação, mas no processo. Algumas
substâncias simplesmente não toleram esse tipo de preparo sem perdas funcionais
importantes. Outras exigem níveis de controle que apenas ambientes industriais
conseguem garantir”, ressalta Garbois.
Isso
não significa que o medicamento manipulado seja inadequado ou dispensável. Pelo
contrário. Quando provenientes de farmácias confiáveis, com farmacêuticos
qualificados, rastreabilidade de insumos e rigor no cumprimento das boas
práticas de manipulação, os medicamentos magistrais são indispensáveis em
diversas situações clínicas. Eles permitem ajustes de dose por espécie e porte,
desenvolvimento de formas farmacêuticas específicas, tratamentos
individualizados e alternativas terapêuticas quando não existem equivalentes
industriais veterinários disponíveis.
O
ponto central, segundo o especialista, é o critério clínico. O
médico-veterinário precisa saber o que pode ser manipulado com segurança, o que
exige cautela extrema e o que não deveria ser manipulado, sob risco de
comprometer a resposta terapêutica.
“Medicina
baseada em ciência não se sustenta em tradição, marketing ou achismo. Ela se
apoia em farmacotécnica, estabilidade molecular e entendimento real do processo
produtivo”, afirma.
Em
um cenário em que a personalização terapêutica ganha cada vez mais espaço, Dr.
Leonardo faz um alerta direto à classe veterinária: não é apenas a fórmula que
trata. O ambiente também trata. Ignorar esse princípio pode custar tempo,
recursos financeiros — e, principalmente, a evolução clínica do paciente.
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