Um Circuito de Artes Visuais no DF: entre a competição e a coletividade, exposições ocupam museus, galerias e territórios periféricos

 

O Distrito Federal assiste, até junho deste ano, a um momento fértil e diversificado na produção contemporânea de artes visuais. São mais de 80 artistas — entre nomes em consolidação, vozes emergentes e trajetórias já reconhecidas nacionalmente — ocupando equipamentos culturais centrais, espaços autônomos e regiões periféricas do circuito de arte. O que se vê é um movimento que não se resume à abertura de mostras, mas sim à consolidação de uma política de presença: a arte contemporânea, cada vez mais, se faz fora do eixo monumental.

 

Responsável por reunir e divulgar esses projetos junto à imprensa, a Território Comunicação — escritório de assessoria de imprensa especializado em cultura — apresenta a temporada de exposições de seus clientes, que inclui mostras competitivas e coletivas, premiações fotográficas, um importante acervo indígena inédito e um projeto de arte pública voltado à educação ambiental, todas com entrada gratuita (ou com acesso sujeito à taxa do parque) e programação voltada à descentralização cultural.

 

 

Descentralização como projeto, não como retórica

 

Planaltina, cidade-irmã mais antiga de Brasília, torna-se um dos epicentros. Lá, o 4º Salão Mestre D'Armas — Arte e Patrimônio ocupa o Museu Histórico e Artístico de Planaltina (MHAP), com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC), até 7 de junho, reunindo 15 artistas do DF e Entorno. O salão não leva apenas obras para a região administrativa: promove também encontros com curadores, visitas de escolas e mediação cultural, reafirmando a ideia de que arte e patrimônio não podem ser privilégio de quem já tem acesso a museus e galerias. O Salão distribui R$ 48 mil em prêmios (três aquisitivos de R$ 8 e 12 de participação de R$ 2 mil).

 

Ainda em Planaltina, o Prêmio de Fotografia Onça Pintada ocupa a UnB Planaltina, com aporte do FAC, até 14 de maio, expondo 20 séries fotográficas sobre biodiversidade e instituindo votação popular aberta pelas redes sociais, envolvendo o público na escolha dos vencedores. Com premiação total de R$ 8 mil dividida entre os três primeiros colocados, o prêmio reforça o papel da região como polo de produção e difusão artística.

 

Essa mesma aposta na descentralização orienta a exposição "Faces", da fotógrafa Ana Lima, que ocupa o Museu dos Correios até 14 de junho. Embora o museu esteja no coração do Setor Comercial Sul, a quem a exposição dá voz são pessoas que vivem às margens da cidade planejada: frequentadores do único banheiro público da região, entre pessoas em situação de rua, trabalhadores ambulantes e moradores. A mostra tensiona a própria ideia de "centro" ao lembrar que, ali mesmo, na área comercial mais movimentada de Brasília, há corpos que a cidade insiste em não ver. A exposição conta com recursos da PNAB – Política Nacional Aldir Blanco.

 

 

Memória indígena e descolonização do acervo: a chegada do Acervo Doéthiro

 

Ainda no Setor Comercial Sul, mas com uma proposta radicalmente diferente, a Casa da América Latina (CAL/UnB) recebe, de 28 de maio a 25 de junho, a exposição inédita "Vida e Luta de Álvaro Tukano: Acervo Doéthiro", realizada com recursos da PNAB/2024. Reunindo 120 peças entre objetos etnológicos, documentos históricos, fotografias e obras literárias raras, a mostra revela a trajetória de mais de três décadas de militância de Álvaro Tukano, liderança indígena do povo Yepá-Mahsã e uma das vozes mais respeitadas na luta pelos direitos indígenas no Brasil e na América Latina. O acervo, batizado de Doéthiro — inspirado no espírito do primeiro homem na cosmologia Tukano, aquele que atravessa mundos e conecta tempos — funciona como um dispositivo de memória viva.

 

 

Do prêmio à escuta coletiva: diferentes modos de organização

 

Os modos de organizar essas exposições também são plurais e revelam estratégias distintas de valorização artística. Há mostras competitivas como o Salão Mestre D'Armas e o Prêmio Onça Pintada, e outras que investem na coletividade e na horizontalidade. É o caso de "Desde antes até quando?", na A Pilastra (Guará II), que reúne mais de 40 artistas de Norte a Sul do país — de Pernambuco ao Paraná, passando por Goiás, São Paulo, Distrito Federal, Santa Catarina e Minas Gerais. A curadoria de Luisa Günther e Gisele Lima organizou a mostra não por hierarquias consagradas, mas por diálogos e fricções: ao lado de nomes indicados ao Prêmio Pipa e premiados na FARGO 2025, encontram-se artistas que estão dando seus primeiros passos em exposições coletivas.

 

Em cartaz até 2 de maio na A Pilastra, "Carnavalesco Canibalesco" (Badu) insere a produção do artista num diálogo entre antropologia e arte, conectando festa popular e pesquisa acadêmica, sob curadoria de Geovanna Belizze. Ambas as exposições de A Pilastra contam com fomentos FAC e do edital Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas 2025.

 

 

Números expressivos, novos nomes e um olhar curatorial atento

 

Ao todo, o circuito reúne cerca de 100 artistas e um acervo indígena de 120 peças — número expressivo que evidencia a pujança da cena local, centro-oestina e também a força da memória ancestral. Muitos desses nomes estão sendo apresentados ao público de Brasília pela primeira vez.

 

A curadoria tem papel fundamental nesse achado. Tânia Rivera, à frente do chamamento nacional para "Desalinhos e Costuras: Arte e Loucura" (que ocorre em setembro no Museu Nacional da República com recursos do FAC), é uma das referências brasileiras na articulação entre arte e saúde mental. Marcelo Feijó, curador de "Faces", destaca a escolha estética de Ana Lima por closes que eliminam paisagens e cenários, devolvendo ao retrato sua força primordial.

 

 

Arte Integração: quando o banco do parque vira galeria a céu aberto

 

O encontro entre arte, educação e meio ambiente ganha um desdobramento concreto — literalmente. Entre 3 de março e 6 de abril de 2026, o projeto "Arte Integração" realizou 10 oficinas criativas em escolas públicas de regiões administrativas do entorno do Parque Nacional de Brasília, atendendo 400 crianças de 6 a 12 anos. A proposta, idealizada pelo artista plástico Paulo Mac Dowell e realizada pelo Instituto Alvorada Brasil com patrocínio da Claro via Lei de Incentivo à Cultura do DF, partiu de uma realidade social marcada pelo distanciamento da população de baixa renda em relação às diversas formas de expressão artística.

 

Com o tema "Cerrado: fauna e flora", as atividades foram ministradas por Mac Dowell e pela arte-educadora Carolina Melo. Sob a curadoria da artista plástica Ligia Medeiros (especializada em arte com azulejos), alguns dos desenhos criados pelas crianças serão transformados em painéis de azulejos. Esses painéis ornamentarão bancos de concreto — projetados por Mac Dowell — a serem instalados no Parque Nacional de Brasília no início de junho, coincidindo com a Semana do Meio Ambiente, entre os dias 2 e 5 de junho de 2026.

 

A ação estabelece um elo simbólico entre centro e periferia por meio da linguagem do azulejo — tradição artística em Brasília, do ícone Athos Bulcão. Ao levar essa expressão para escolas do entorno do parque e depois transformar a produção infantil em arte pública, o projeto democratiza o legado, forma pequenos artistas e devolve à cidade um lugar de pertencimento e visibilidade. Para Paulo Mac Dowell, "a arte é uma ferramenta poderosa de transformação social e ambiental. Queremos formar não apenas pequenos artistas, mas cidadãos mais críticos, conscientes de seu papel na sociedade e na preservação do meio ambiente."

 

 

O que vem por aí: duas mostras para manter no radar (e uma já em cartaz)

 

Duas exposições ainda estão por acontecer e merecem atenção especial. A primeira é "Desalinhos e Costuras: Arte e Loucura" (@desalinhosecosturas), que em setembro de 2026 ocupará o Museu Nacional da República com curadoria de Tânia Rivera. A segunda é "Desde antes até quando?", que será aberta em 9 de maio e segue até 22 de junho na A Pilastra, posicionando-se como um contraponto necessário à lógica das feiras de arte. E há ainda a estreia do Acervo Doéthiro na Casa da América Latina (28/5 a 25/6), com programação paralela gratuita que inclui oficina de gestão de acervos digitais e roda de conversa com o próprio Álvaro Tukano.

 

 

Serviço:

·                     Carnavalesco Canibalesco (Badu) — até 2/5, A Pilastra (Guará II): https://bit.ly/CarnavalescoCanibalesco

·                     4º Salão Mestre D'Armas — até 7/6, MHAP (Planaltina): https://bit.ly/4SalaoMestreDArmas

·                     Prêmio Onça Pintada — até 14/5, UnB Planaltina: https://bit.ly/PremioFotografiaOncaPintada

·                     Faces (Ana Lima) — até 14/6, Museu dos Correios (SCS): https://bit.ly/ExposicaoFaces

·                     Desde antes até quando? — 9/5 a 22/6, A Pilastra (Guará II): https://bit.ly/desdeantesatequando

·                     Vida e Luta de Álvaro Tukano: Acervo Doéthiro — 28/5 a 25/6 (abertura 28/5, 19h), Casa da América Latina (SCS, Quadra 4, Bloco A): https://www.acervo.doethiro.com

·                     Arte Integração — instalação dos bancos com painéis de azulejo — 2 a 5/6 (Semana do Meio Ambiente), Parque Nacional de Brasília. Acesso gratuito (sujeito à taxa de entrada do parque). Fotos de divulgação: https://bit.ly/ArteIntegracao

 

 


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